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Pequena História de Circulação Extracorpórea no Brasil

1. Evolução do Perfusionista 
2. Nascimento do Icps 
3. Origens do Clap 
4. Fatores Favoráveis do Clap 
5. Objetivos do Clap 
6. Formação do Perfusionista 
7. Serviço De Cirurgia Cardíaca 
8. Qualidades do Perfusionista
9. Tecnologia de Ponta
10. Defasagem Tecnológica 
11. Caminhos para o Progresso 
12. Evolução Individual 
13. Evolução em Equipe 
14. Evolução como Classe Profissional 
15. Gerenciar nossa Entidade Representativa (Sbcec) 
16. Conclusões
17. Presidentes

Por: Nilson Antunes, Maria Helena L. Souza.

Com a inauguração do novo site da Sociedade Brasileira de Circulação Extracorpórea – SBCEC fui convidado pela atual diretoria a escrever um breve histórico desta sociedade. Tarefa um pouco difícil para quem tem apenas 22 anos de trabalho numa profissão que tem 58 anos de historia no Brasil, (tomando por base a primeira cirurgia cardíaca com uso de circulação extracorpórea no Brasil realizada em 12 de novembro de 1956 pelo Dr. Hugo João Felipozzi, tendo como perfusionista o médico José dos Santos Perfeito) e pela limitação de publicações que possam contar a historia da SBCEC pelos seus perfusionistas. Encontramos apenas abordagem de médicos, cirurgiões cardíacos, narrando a história da cirurgia cardíaca, com uma pequena abordagem da circulação extracorpórea, que não descrevem o processo de organização da SBCEC.

Maria Helena L. Souza e Décio Elias publicaram material importante sobre a CEC no Brasil enquanto responsáveis pelo site Pefusion Line. Contudo, este site foi vendido e todo seu conteúdo tirado do ar. 

Minha primeira observação é que necessitamos urgentemente de pesquisa e publicações que registrem nossa história. Existem muitos perfusionistas que participaram dos primeiros passos da CEC no Brasil e deveriam ser entrevistados, registrando toda a história que eles têm para contar. Minha esposa concluiu recentemente sua tese de doutorado, onde pesquisou, utilizando-se da metodologia da história oral, o processo de criação das políticas de saúde mental no Brasil. Creio que poderíamos ter trabalhos como este buscando resgatar toda historia não contada da circulação extracorpórea no Brasil. Com isto, poderíamos resgatar importantes profissionais que estiveram intimamente envolvidos em todo o inicio da perfusão no Brasil. Esta historia esta na cabeça destas pessoas aguardando para serem escritas ou serem esquecidas.

O texto abaixo foi extraído de uma palestra apresentada por Maria Helena L. Souza na Escola Paulista de Medicina, hoje UNIFESP, ao curso de formação de perfusionista com o Título de “Formação de Perfusionista no terceiro milênio”, publicado inicialmente no site “perfusion line” e, com autorização da autora, publicado em Boletim “Circulando” № 25 de 2007 da SBCEC, que pode ser conferido aqui na integra CLIQUE AQUI

Acredito que este texto traga as informações mais precisas de quem esteve diretamente envolvida com a fundação da SBCEC. Portanto, divido a autoria deste texto com minha amiga Maria Helena.

“A circulação extracorpórea foi realizada com sucesso, pela primeira vez, em seres humanos, em 6 de Maio de 1953. Esta data marca o início da fase moderna da cirurgia cardíaca e o nascimento da profissão de perfusionista. 

Nos seus primórdios, a CEC era realizada com equipamentos rudimentares, artesanalmente construídos e seu uso era limitado à substituição das funções de bombeamento do coração e à oxigenação do sangue, por períodos relativamente curtos, suficiente apenas para a realização das operações mais simples. Os procedimentos de maior complexidade eram, com muita freqüência, fadados ao insucesso ou ao desenvolvimento de grandes complicações, devidas principalmente aos aparelhos usados na perfusão. 

O nascimento da profissão de perfusionista e o seu desenvolvimento subseqüente foi muito semelhante em todos os países. 

Nos seus primórdios, a perfusão era ministrada por um membro da equipe cirúrgica, com o auxílio de um outro indivíduo, menos qualificado, encarregado das tarefas menos nobres que incluíam colocar gelo no reservatório adequado, preparar as soluções para o perfusato e, principalmente, ser o alvo das reclamações dos cirurgiões, quando o procedimento fugia ao esperado, o que era quase a regra e não a exceção. Estamos falando dos primeiros anos da circulação extracorpórea. 

Os cirurgiões que ministravam a perfusão foram, aos poucos, delegando as tarefas da perfusão aos indivíduos que os ajudavam, em geral, os auxiliares de enfermagem ou circulantes da sala de operações. Estes, inicialmente sob a supervisão dos cirurgiões e depois, por conta própria, progressivamente assumiram as tarefas de preparo e de condução da perfusão. Os cirurgiões voltaram ao campo cirúrgico. 

Assim constituiu-se a primeira geração de técnicos de perfusão. Estes, na maioria das vezes, não tinham grandes conhecimentos teóricos de fisiologia e patologia, mas, indiscutivelmente, tinham uma grande habilidade para manusear todos os aspectos mecânicos da circulação extracorpórea e para lidar com eventuais falhas dos equipamentos, que não eram raras. 

Essa época representou uma fase curiosa do desenvolvimento dos perfusionistas. O cirurgião, a um só tempo, realizava o ato cirúrgico e atuava como fiscal e preceptor das atividades de um profissional de cujo desempenho dependia a vida do paciente, durante a cirurgia. O rigoroso cuidado exigido na formação do cirurgião e do anestesista não era aplicado à formação do perfusionista. E, sem dúvida, dentre os principais membros da equipe de cirurgia cardíaca, cirurgiões, anestesistas e perfusionistas, o perfusionista é o que tem as maiores chances de produzir injúria severa no paciente. 

Com o objetivo de estabelecer uma ampla troca de informações e de conhecimentos, organizar rotinas de trabalho e discutir as dificuldades comuns, alguns cirurgiões e técnicos de perfusão passaram a reunir-se com alguma periodicidade. E, estas reuniões permitiram a criação de organizações ou sociedades que abrigavam os profissionais interessados em circulação extracorpórea. 

Os norteamericanos foram os pioneiros, com a criação da sociedade que hoje é conhecida como American Society of Extracorporeal Technology (AmSECT). 

Em meados dos anos setenta, fundou-se no Brasil a Sociedade Brasileira de Circulação Extracorpórea e Órgãos Internos Artificiais (SBCECOIA), que tinha o ambicioso objetivo de congregar todos os interessados em circulação extracorpórea, hemodiálise e órgãos artificiais. O tempo demonstrou que apenas os técnicos de perfusão participavam das atividades da sociedade. Eu iniciei a minha atividade em Perfusão em 1974. Fui incumbida de organizar o terceiro congresso da sociedade do meu país, a SBCECOIA, em 1984, no qual, por votação unânime dos participantes, fui honrada com a eleição para a Presidência da sociedade - representando a transição da direção da sociedade das mãos dos cirurgiões para os perfusionistas. 

Conseguimos reunir algumas pessoas, cirurgiões e perfusionistas, interessadas na formação científica daquele grupo de profissionais e investimos bastante tempo e trabalho em ministrar palestras, cursos, simpósios e passamos a realizar o congresso anualmente. Ao mesmo tempo publicamos três módulos denominados Introdução à Circulação Extracorpórea, que serviram de base teórica para o aperfeiçoamento dos perfusionistas em atividade, já que não havia material educacional publicado em Português. Em 1986, percebemos que não teríamos a companhia dos profissionais da hemodiálise ou dos órgão artificiais e aprovamos a simplificação do nome para Sociedade Brasileira de Circulação Extracorpórea, que persiste até os dias atuais. 

Como membro associado da AmSECT, obtive o apoio incondicional dessa sociedade, para distribuir o seu material educacional no Brasil. Recebí permissão para traduzir e publicar qualquer módulo educacional de propriedade da AmSECT que fosse do interesse particular da SBCEC. 

Nossa sociedade evoluiu até o ponto de recomendar que o treinamento em circulação extracorpórea fosse oferecido apenas a indivíduos portadores de diploma universitário em uma das carreiras das ciências biológicas e da saúde. 

Com o objetivo de avaliar o nível de conhecimento e a qualidade do treinamento prático dos perfusionistas, à semelhança dos "boards" norteamericanos, instituímos o Título de Especialista, conferido aos profissionais que atestassem a realização de 100 perfusões e fossem aprovados em um exame escrito, contendo cerca de 50 questões de múltipla escolha, abrangendo os principais aspectos da circulação extracorpórea. Os perfusionistas com mais de 10 anos de experiência receberam o Título de Especialista por reconhecido mérito, sem necessidade do exame. Aos demais, a posse do Título dependia de aprovação no citado exame. À partir do segundo exame, aos pré-requisitos assinalados, acrescentou-se a posse do certificado de conclusão de curso universitário, nas áreas das ciências biológicas e da saúde. 


EVOLUÇÃO DO PERFUSIONISTA 

Com muito entusiasmo e contando com a participação de um grupo de perfusionistas representando todas as regiões do Brasil, procuramos acompanhar os progressos ocorridos no exterior e iniciamos a fase de transição dos técnicos de perfusão para os perfusionistas que, a nosso ver, eram os profissionais com formação básica em fisiologia, patologia e outras ciências e com aptidão e bom desempenho da prática mecânica da circulação extracorpórea. 

A primeira iniciativa de organizar um curso de formação de perfusionistas ocorreu ao final dos anos 80, no Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro, por iniciativa dos Dr. Volmer Bonfim e Sérgio Caminha que adaptaram o curso de uma universidade americana. 

A iniciativa correu por conta da criação de um programa especial de desenvolvimento tecnológico criado entre o Ministério da Saúde e a Campanha Nacional de Combate ao Câncer, por ser uma fundação. Mas, problemas políticos fizeram com que o programa fosse extinto. 

A única versão do curso foi um sucesso e os profissionais que concluíram o curso, na sua maioria, tornaram-se profissionais de muito bom nível. 

Com a permissão dos seus autores, modificamos e adaptamos o curso às nossas necessidades à época e o adotamos como a recomendação da Sociedade Brasileira de Circulação Extracorpórea, para a formação de perfusionistas no Brasil. Essa iniciativa deve ter sido precoce, porque os cursos de formação de perfusionistas apenas começaram a surgir ao final dos anos 90. E com modelos próprios, adaptados da experiência dos seus organizadores, como o presente curso, por exemplo. 

O curso recomendado pela SBCEC, nos anos 80 consistia de dois ciclos ministrados durante 1 ano. O ciclo básico era constituído por 5 disciplinas: Anatomia e Patologia, Fisiologia, Farmacologia Clínica, Microbiologia e Controle de Infecção e Introdução à Pesquisa. 

O ciclo específico ou ciclo profissionalizante, era constituído por 4 disciplinas e 2 estágios. As disciplinas eram a Introdução ao Centro Cirúrgico, Bases da Cirurgia Cardíaca, Circulação Extracorpórea e Tecnologia Extracorpórea. Os estágios eram feitos no Laboratório de Análises Clínicas e na Perfusão Clínica do centro cirúrgico. 

O detalhamento de todas as disciplinas mostra que o curso era bastante abrangente. 


NASCIMENTO DO ICPS 

Com o objetivo de elevar os padrões internacionais da prática da perfusão, a AmSECT e algumas sociedades da Europa organizaram o Primeiro Congresso Mundial de Tecnologia Extracorpórea, realizado em 1981, na Inglaterra. Esse primeiro congresso originou a criação do International Council of Perfusion Societies (ICPS) que tinha a ambiciosa missão de congregar a comunidade internacional de perfusionistas, através das suas respectivas sociedades nacionais. Fui convidada a compor a primeira Diretoria, na qualidade de Assistant Secretary e organizamos o segundo congresso mundial na cidade de Bal Harbour, na Flórida. 

O sucesso científico não foi reproduzido na esfera administrativa e gerencial. O congresso deveria retornar à Europa e nunca houve acordo em relação ao país sede ou aos idiomas oficiais do evento. Após numerosas reuniões, encontros e, principalmente, desencontros, o ICPS sucumbiu, deixando uma dívida de cerca de dez mil dólares, sob a responsabilidade da diretoria. A AmSECT, talvez por ceder seus membros à diretoria e por ter participado da criação da organização, cobriu todas as despesas e isentou os membros da diretoria de qualquer responsabilidade financeira ou fiscal. Talvez a iniciativa tivesse sido muito precoce e a nossa comunidade ainda não estivesse preparada para uma organização dessa magnitude. 

Apesar de tudo, o núcleo do ICPS persistiu com a idéia da união de forças. E, como eu era a responsável pela aglutinação dos perfusionistas da América Latina, coube a mim, após os funerais do ICPS, a incumbência de estimular a formação de sociedades nacionais e a congregação dos perfusionistas da América Latina. 

Nos anos 80, diversos países latinoamericanos ainda não tinham sociedades nacionais. Outros abrigavam um número tão pequeno de perfusionistas que a criação de uma sociedade era inviável. 

Estimulamos a criação de sociedades nacionais onde havia condições para tanto. Os perfusionistas de paises menores, em pequeno número foram aconselhados a tornar-se membros das sociedades dos países vizinhos e, desse modo, a nossa comunicação ficou mais fácil e mais rápida e todos podemos nos beneficiar das atividades científicas e da distribuição de material educacional básico e de educação continuada. Sob esse aspecto, a Internet é uma ferramenta excepcional e viabilizou a maior parte dos nossos projetos. 


ORIGENS DO CLAP 

Muitos perfusionistas latinoamericanos freqüentavam os congressos da Sociedade Brasileira e não foi difícil reunir um grupo de colegas, perfusionistas experientes e líderes em seus países, para constituir um núcleo incentivador do nosso desenvolvimento e da nossa unificação. Com essa finalidade, em 1992, fundamos uma organização que denominamos Conselho Latinoamericano de Perfusão, o CLAP. 

A criação do CLAP deveu-se como disse ao trabalho conjunto de um grupo de perfusionistas interessados em estimular o progresso da nossa profissão e dos nossos profissionais, no âmbito da América Latina, procurando contornar as naturais dificuldades que cronicamente afetam a nossa região. 


FATORES FAVORÁVEIS DO CLAP 

Para evitar conflitos de interesses ou eventuais discordâncias entre o CLAP e as sociedades nacionais, procuramos eliminar qualquer possibilidade de atuação política. E a melhor estratégia que usamos foi a de que o CLAP não é constituído por representantes dos diversos países membros. Ao contrário, o CLAP tem os seus representantes nos diversos países. E por serem indivíduos experientes e maduros, os representantes do CLAP colaboram com as sociedades dos seus países, sob "demanda". Nada é imposto ou tornado obrigatório. A adesão é sempre voluntária. Esse mecanismo evita as constantes trocas de representantes que ocorreriam quando da mudança da direção das sociedades nacionais. O trabalho do CLAP não teria continuidade e, muito provavelmente, não seria bem sucedido. 


OBJETIVOS DO CLAP 

Quando da sua criação, o CLAP tinha os seguintes objetivos:

1. Estimular a organização dos perfusionistas dos países da América Latina em sociedades nacionais;

2. Promover a união e o congraçamento dos perfusionistas da América Latina;

3. Estimular o desenvolvimento profissional e científico dos perfusionistas dos países da América Latina;

4. Realizar a cada três anos o Congresso Latinoamericano de Tecnologia Extracorpórea; e

5. Editar a Revista Latinoamericana de Tecnologia Extracorpórea, para servir de veículo de comunicação científica e tecnológica da nossa comunidade. A revista foi impressa em papel até o volume 6, de 1999. À partir do ano 2.000, por razões econômicas e estratégicas, uma vez que a distribuição da revista era muito difícil e cara, passamos a publicar a revista no formato eletrônico, distribuída pela Internet, através do nosso website Perfusion Line. 

Mais recentemente foi decidido que o CLAP também deverá estabelecer os padrões mínimos para a formação de perfusionistas, com a elaboração de um currículum mínimo, a ser recomendado aos países membros. 

O CLAP deverá também elaborar um conjunto de normas e protocolos com os padrões mínimos adequados à prática da circulação extracorpórea, com o objetivo de melhorar as condições de trabalho de muitos dos nossos perfusionistas que dispões de recursos reduzidos para a sua prática diária. 

O CLAP deverá também criar um sistema de certificação voluntária, como os "boards" americano e europeu, para avaliar a formação e o nível de competência na prática da perfusão. 

Como esse material já existe, nossa missão deverá ser mais simples e, uma vez mais, vamos nos socorrer da experiência dos Estados Unidos e da Europa. 

O nosso maior desafio é eliminar a defasagem científica e tecnológica com o chamado "mundo desenvolvido". 


FORMAÇÃO DO PERFUSIONISTA 

Pelo que nós vimos até aqui, podemos dividir a formação do perfusionista em duas fases muito distintas. A primeira fase, a fase "romântica" ou de desenvolvimento inicial, foi caracterizada essencialmente pelo treinamento prático, em serviço. Não chegou a ser do tipo: veja uma, faça uma e ensine uma. Mas criou alguns bons perfusionistas e alguns outros bons "tocadores de bomba" que apenas não deixavam entrar ar no sistema, quase sempre. 

A formação do perfusionista brasileiro nos dias de hoje e, principalmente ao longo desse terceiro milênio que se inicia, é baseada em um currículo meticulosamente organizado para oferecer as bases científicas que um indivíduo precisa ter para ministrar a perfusão consciente e de acordo com as necessidades particulares de cada paciente. 

Essa formação acadêmica que já vigora há muitos anos nos países mais desenvolvidos, vem de encontro às necessidades da cirurgia cardíaca. Esta representa o trabalho de uma grande equipe, na qual, no centro cirúrgico, no momento da realização da operação, fica centrado nos 3 membros principais: o cirurgião, o anestesista e o perfusionista. Cada um tem que ser muito bem preparado para o exercício da sua tarefa. O resultado final depende do conjunto do trabalho desenvolvido. 


SERVIÇO DE CIRURGIA CARDÍACA 

Mas, um serviço de cirurgia cardíaca não é constiuído apenas por 3 membros. Vejam a complexidade e as relações de um serviço que realiza o tratamento cirúrgico das doenças cardiovasculares. Diversos outros serviços e especialistas, a cada momento assumem o papel mais importante no manuseio do paciente. E o perfusionista é parte importante do núcleo central dessa equipe. E deve estar devidamente preparado para essa responsabilidade. 


QUALIDADES DO PERFUSIONISTA 

O que se espera do perfusionista ? 

Espera-se que um perfusionista tenha muitas qualidades. Entretanto, quatro qualidades são essenciais, para o bom desempenho de um perfusionista:

1. Dedicação ao paciente - O perfusionista tem que se entregar completamente ao trabalho da perfusão e usar todo o seu conhecimento e habilidades para realizar sempre o melhor trabalho possível de ser realizado dentro do ambiente e das circunstâncias em que trabalha. Um bom trabalho apenas, não é o suficiente. O trabalho tem que ser o melhor possível - em todos os casos - para todos os pacientes: ricos, pobres, feios, bonitos, de qualquer raça, religião ou credo político. 

2. Completa integração à equipe em que trabalha - O perfusionista deve sempre lembrar que o chefe da equipe de cirurgia cardíaca comanda e coordena o trabalho de todos os profissionais envolvidos na cirurgia. Espera-se do perfusionista além da integração hierárquica, um bom relacionamento e um trabalho cooperativo com todos os membros da equipe. O paciente é sempre o grande beneficiado por um trabalho organizado e desenvolvido dentro de um ambiente harmônico e colaborativo. 

3. A competência profissional é talvez o primeiro e maior requisito para a admissão de um perfusionista em uma equipe de cirurgia cardíaca. O perfusionista deve estudar e manter um nível atualizado de conhecimentos, além da habilidade prática e da atuação quase por reflexos. Nenhuma outra qualidade pode substituir a competência, no trabalho do perfusionista. 

4. Além dos requisitos assinalados, um comportamento pessoal e profissional bastante ético é absolutamente indispensável, seja em relação ao paciente, aos seus colegas, aos membros da equipe que integra e em relação ao pessoal do hospital em que trabalha. Esse comportamento só traz dividendos porque situa o perfusionista como um profissional zeloso, afável, ciente e cumpridor dos seus deveres e obrigações. 


TECNOLOGIA DE PONTA 

Não é segredo que nós, apesar de trabalharmos com tecnologia de ponta, estamos inseridos no contexto social, cultural, político e econômico de um país em desenvolvimento, para não usar a expressão "terceiro mundo", que não descreve a nossa realidade e porque, quase sempre, é usada em tom depreciativo ou pejorativo. 

As nossas dificuldades para realizar um mesmo tipo de trabalho são muito maiores. Temos mais dificuldades com a disponibilidade dos recursos materiais, tecnológicos e até com a compensação salarial, que não pode ser ignorada. Nós sofremos os problemas e vivemos no nosso dia a dia, as dificuldades de realizar um trabalho de boa qualidade técnica, dentro de um ambiente que, freqüentemente é impróprio, inadequado e, às vezes, até mesmo hostil - porque a cirurgia cardíaca em um hospital geral, sempre desperta emoções ou reações adversas, tanto pelo volume de recursos que consome quanto pelo "status" que confere. De qualquer modo, a equipe de cirurgia cardíaca raramente é vista ou tratada como as equipes das demais especialidades. 

Como a vida dos pacientes é salva pela aplicação dos mesmos recursos e das mesmas técnicas usadas para salvar vidas no mundo desenvolvido, as nossas dificuldades são sempre, sem qualquer dúvida, muito maiores. 


DEFASAGEM TECNOLÓGICA 

Existem grandes diferenças entre o mundo desenvolvido (o chamado primeiro mundo) e o mundo em desenvolvimento, em muitas áreas de conhecimento e no setor tecnológico, de um modo geral. Existe uma certa distância, o chamado "gap" tecnológico que separa esses dois mundos. 

Quando falamos em defasagem tecnológica, não nos referimos apenas aos aparelhos e máquinas. Também nos referimos ao nível de sofisticação das técnicas empregadas e ao nível de preparo e organização individual e coletiva dos profissionais que empregam a tecnologia. 

É difícil "medir" essa distância porque ela não é a mesma em todos os setores. Nossa indústria de aviões de médio porte, por exemplo, é de primeira grandeza, igual à dos demais países que fabricam esse tipo de aeronaves. Outros indicadores, entretanto, são extremamente defasados daqueles encontrados no primeiro mundo. 

Apenas para efeito comparativo e, por favor, nós não devemos nos sentir mal por isso, essa distância, como não poderia deixar de ser, é uma realidade também na nossa atividade. Nós somos hoje os profissionais que o primeiro mundo tinha há cerca de 10 a 20 anos. E, certamente seremos, dentro dos próximos 5 anos, os profissionais que o primeiro mundo tem hoje. 

Entretanto, em termos de organização coletiva nós estamos na fase neonatal enquanto alguns já são adolescentes ou adultos maduros. 

Uma estimativa da nossa área de trabalho, a Perfusão, indica que a defasagem tecnológica oscila em torno de 10 a 20 anos. Um valor numérico exato, não tem muita importância. O mais importante é identificar a defasagem e trabalhar com o máximo empenho, no sentido de torná-la cada vez menor. A experiência tem mostrado que, à medida que o tempo passa, a defasagem diminui. E tomara que continue assim. Queira Deus. E eu acredito que ele quer. 


CAMINHOS PARA O PROGRESSO 

Não é fácil encontrar o melhor caminho para o progresso, em atividades como a nossa, que dependem de uma grande quantidade de fatores, muitos dos quais ainda não estão ao nosso alcance. Apesar disso, podemos dizer que temos duas rotas a percorrer.

1. Seguir o caminho dos que estão à nossa frente

2. Descobrir os atalhos adequados à nossa realidade 

Felizmente, a "receita" que leva aos melhores resultados já foi preparada, testada e aprovada. Muitos países, como Austrália, França, Áustria, Alemanha, para citar apenas alguns, procuraram seguir (ou seja copiar) a experiência americana adaptada às suas particularidades e às suas necessidades. E deram certo. 

É o que nós devemos fazer. Ao invés de reinventar a roda, podemos simplesmente ganhar tempo, copiando a roda que todo mundo usa. E aí, sim, adapta-la às nossas estradas, às vezes cheias de buracos e até de precipícios. 

Nós precisamos evoluir individualmente; precisamos evoluir em equipe, desempenhando um trabalho realmente coletivo; precisamos evoluir como uma classe profissional; e precisamos desenhar e gerenciar o nosso futuro, reunidos na nossa entidade representativa, a Sociedade Brasileira de Circulação Extracorpórea. 

Vamos ver cada uma dessas nossas necessidades com mais detalhes, procurando demarcar os caminhos para o nosso progresso. 


EVOLUÇÃO INDIVIDUAL 

Individualmente nós devemos estudar e acumular uma base de conhecimentos científicos que nos permitam exercer a nossa atividade com segurança. A perfusão é uma arte, mas também é uma ciência e deve ser encarada dessa forma. 

Nós não podemos simplesmente usar apenas a experiência prática, adquirida na sala de operações e desprezar o sólido conhecimento das bases de fisiologia que regem todas as ações e decisões que devem ser tomadas a cada momento da perfusão. Precisamos ser profissionais com uma adequada formação acadêmica, exatamente como essa que vocês estão adquirindo nesse excelente curso. Uma formação teórico-prática sólida e consistente constitui a base para o crescimento profissional de cada um de nós. 

Precisamos ter e obviamente seguir rotinas e protocolos de trabalho, escritas para todos os tipos de perfusão e de técnicas que usamos, inclusive para a montagem, preparo e teste dos equipamentos e aparelhos. 

Rotinas descrevem linhas gerais de conduta para determinados procedimentos freqüentemente utilizados. As rotinas têm o objetivo de padronizar as condutas, facilitando a sua rápida aplicação aos procedimentos. 

Protocolos detalham cada passo de uma rotina ou de um procedimento específico, orientando minuciosamente a sua aplicação. 

A experiência demonstra que nas atividades em que há envolvimento e participação coletiva, como na Cirurgia Cardíaca, a existência de um conjunto de rotinas e protocolos, contribui para um cuidado melhor e mais científico aos pacientes, além de assegurar a continuidade dos tratamentos ministrados. 

Devemos observar atentamente e documentar todos os aspectos relevantes das perfusões que ministramos. Devemos usar, pelo menos, uma ficha de perfusão e uma ficha de checagem para o preparo e a condução da circulação extracorpórea. Uma ficha pré-perfusão, com o resumo dos principais dados referentes ao paciente também é um grande auxiliar do perfusionista. 

A documentação minuciosa de todos os eventos da perfusão, vai nos permitir organizar e acumular a nossa própria experiência. Devemos estudar os nossos casos com o objetivo de definir outras soluções mais simples ou mais adequadas aos problemas que eventualmente encontramos. 

Devemos também discutir e divulgar a nossa experiência pessoal, seja em congressos e outras atividades de comunicação oral, como cursos, simpósios, palestras ou escrevendo trabalhos para publicação nas revistas especializadas. 

O perfusionista moderno deve aproveitar as facilidades da globalização e da Internet e participar mais intensamente das trocas de experiências com os colegas de outros países. Nós, no Brasil, estamos cercados por colegas que falam Espanhol e fora da América Latina apenas podemos trocar idéias e experiências com os colegas de outros países se tivermos algum domínio do Inglês. 

Devemos ainda lembrar que as revistas e os livros, com muito raras exceções, são todos publicados em Inglês. 


EVOLUÇÃO EM EQUIPE 

Precisamos também evitar o individualismo que é uma característica cultural muito comum nos nossos profissionais e cultivar o trabalho em equipe. O trabalho do perfusionista é sempre uma parte do trabalho da equipe multidisciplinar que ele integra. 

Além disso, precisamos trabalhar em grupo com os nossos colegas de serviço. Trocando idéias, informações, experiências, ajudando e sendo ajudado e não apenas "quebrando o galho" de quem precisa sair mais cedo ou escondendo os "furos" para que o chefe não tome conhecimento. 


EVOLUÇÃO COMO CLASSE PROFISSIONAL
 

Como classe profissional nós ainda temos um longo caminho a percorrer. Nós já somos uma profissão, mas poucos são os que tem essa exata noção. 

A profissionalização de verdade consiste em exercer a sua atividade, o seu trabalho, baseado em conhecimentos sólidos, com interesse, dedicação e responsabilidade. Devemos assumir e ter orgulho da profissão que exercemos. Apenas assim, conseguiremos a admiração e o respeito dos nossos pares e, principalmente, dos profissionais das outras áreas. 

Nesse ponto, vale uma observação que eu considero importante. Se você é um perfusionista, você tem que assumir que é um perfusionista e conduzir-se como um perfusionista, sempre que você estiver exercendo o seu trabalho. Não importa que você também tenha outra profissão. Na verdade todos os perfusionistas tem outra profissão. Mas não é correto um perfusionista intitular-se Fisioterapeuta Perfusionista, Biólogo Perfusionista ou Enfermeiro Perfusionista, como nós vemos acontecer, algumas vezes. Isso passa a impressão de que você julga a sua outra profissão mais importante ou de que você acha que a perfusão é uma profissão menos nobre. 

Se nem nós mesmos, nos consideramos profissionais de perfusão, o que devemos esperar dos outros ? Não é verdade ? 

Muitos acham que a "profissionalização" é o reconhecimento da profissão pelas autoridades do Ministério da educação, do Ministério da Saúde e do Ministério do Trabalho. Isso, na verdade, é o reconhecimento oficial e a regulamentação da profissão, que é um processo demorado e que não se consegue sem um projeto claro, definido e que envolve a todos os profissionais interessados. 

Apesar das dificuldades, o caminho da profissionalização, já começa a ser percorrido. Dois ou três cursos de formação de perfusionistas já adquiriram o reconhecimento do Ministério da Educação, como o curso de vocês, em tão boa hora criado pela Escola Paulista de Medicina. 

O reconhecimento da profissão pelo Ministério do Trabalho é mais difícil e demorado e exige um esforço junto aos políticos que precisa ser organizado, intensivo e coordenado, como um verdadeiro "lobby". No momento não me parece que estamos em situação favorável para conseguir tamanha mobilização, porque como profissão, estamos desmobilizados. Não basta o trabalho de um ou dois membros da diretoria da sociedade para que a classe política crie e aprove projetos do interesse de menos de 500 cidadãos, embora a nossa profissionalização seja também do interesse da população, como um todo. 

Trabalhar em grupo é difícil e deve ser praticado para ser feito com naturalidade. 


GERENCIAR NOSSA ENTIDADE REPRESENTATIVA (SBCEC) 

Além de trabalhar em equipe, nós precisamos ser uma verdadeira comunidade. Uma comunidade não é apenas um grupo de pessoas que realizam um mesmo trabalho ou tem um interesse em comum. A verdadeira comunidade é capaz de agir com espírito coletivo. Deve ser capaz de traçar um projeto para o seu futuro e de trabalhar para transformar aquele projeto em realidade. 

Isso só se consegue se nós nos reunirmos em torno da entidade representativa da nossa classe, a Sociedade Brasileira de Circulação Extracorpórea. Devemos assumir a sua direção, traçar diretrizes de trabalho, criar um projeto de desenvolvimento imediato e futuro e trabalhar em conjunto para a sua materialização. Não há nenhum exemplo no mundo, que eu conheça, de uma coletividade de perfusionistas que tenha conseguido progredir, de outra forma. 

Esse talvez seja o aspecto mais difícil da profissionalização. A criação de uma consciência coletiva forte e a certeza de que a responsabilidade de conduzir a profissão é de todos nós. Não cresceremos sob nenhuma tutela, por mais bem intencionada que possa ser. Precisamos cometer os nossos próprios erros e desfrutar dos nossos próprios acertos. Só se aprende fazendo. Ninguém vai conseguir conduzir os nossos destinos em nosso lugar. Ou nós nos mobilizamos e assumimos as nossas responsabilidades ou vamos ficar à deriva, marcando passo e cedendo ao desestímulo, à desesperança e à falta de perspectiva. 

Conduzir os destinos dos perfusionistas não é responsabilidade de um pequeno grupo de colegas abnegados que se dispõem a dirigir a nossa sociedade com enorme sacrifício pessoal, trabalhando sem um projeto definido, em condições desfavoráveis, sem apoio e sem ampla participação de uma maioria de membros. 

Nesse particular devemos todos uma enorme gratidão ao grupo de colegas que, com grande esforço, tem mantido a nossa sociedade viva e funcionante, ao longo dos últimos anos, apesar do relativo distanciamento de muitos perfusionistas. Sem arrecadação própria e sem recursos de qualquer origem, nossos colegas conseguiram imprimir uma boa dinâmica à entidade nacional e reviver algumas entidades regionais. As minhas observações não devem ser encaradas como qualquer crítica aos colegas que dirigem a sociedade. Ao contrário, eu conheço bem as dificuldades que isso representa. Devemos apoiar e, principalmente, participar da nossa sociedade. Nossa entidade e sua direção precisam de apoio, precisam ouvir as nossas opiniões e precisam conhecer profundamente as necessidades, às vêzes heterogêneas, da nossa coletividade, para que os seus projetos possam atender aos interesses de todos. 


CONCLUSÕES
 

Em conclusão eu diria que, sem nenhuma dúvida, o perfusionista do terceiro milênio será um profissional altamente qualificado por uma formação acadêmica cuidadosamente planejada e por um treinamento prático capaz de prepará-lo para a correta e imediata solução dos desvios funcionais dos pacientes ou dos aparelhos do circuito da perfusão. A sua formação inclui uma base sólida de conhecimentos de fisiologia circulatória, respiratória e renal, do equilíbrio da água e dos eletrólitos e do equilíbrio ácido-base. A profunda familiaridade com a fisiologia do sangue vai complementar a sua formação com os elementos indispensáveis para realizar com segurança todos os procedimentos da sua esfera de atribuições, dentro e fora da sala de cirurgia cardíaca. 

Ao mesmo tempo esse profissional terá uma consciência coletiva e trabalhará para o seu aperfeiçoamento continuado bem como para o progresso da sua classe profissional. Esse profissional deverá ainda ter um espírito científico fortemente desenvolvido e será capaz de relatar as suas experiências nas apresentações orais dos cursos, simpósios e congresso. Deverá também relatar as suas experiências e observações mediante a publicação de trabalhos científicos, teses, monografias e livros.”

Esse é o profissional que nosso país precisa ter no terceiro milênio. Eu tenho certeza de que alguns desses profissionais podem estar lendo este texto hoje.

Cargo: Presidente (2013 - 2016) 
Estado: Pernambuco


Cargo: Presidente (2011 - 2012)
Estado: São Paulo

Graduado em Enfermagem (1985), mestrado e doutorado em Cirurgia pela UNICAMP (2002- 2009).  Especialista em circulação extracorpórea pela SBCEC. Presidente Fundador da Sociedade de Assistência à Fibrose Cística – FIBROSIS. 

Cargo: Presidente (2009 - 2010)
Estado: Goiás

Biomédico PUC GO, Especialista em Perfusão SBCEC, Professor Universitário UNIFAN Goiânia e UNRV Departamento de Medicina, Perfusionista do grupo Asgard, Colaborador da clínica HONCORD como especialista em perfusão cardio pediátrica.

Cargo: Presidente (2005 - 2008)
Estado: Minas Gerais

Biomédico, perfusionista, acupunturista e professor universitário. Diretor na empresa WRS  Serviços Biomédicos LTDA.

Cargo: Presidente (1999 - 2000/ 2003 - 2004)
Estado: São Paulo

 

Cargo: Presidente (2001 - 2002)
Estado: Distrito Federal

 

Cargo: Presidente (1997 - 1998)
Estado: São Paulo

 

Artigos

Testemunhos

A tecnologia da Perfusão evoluiu, as técnicas cirúrgicas evoluíram, e o perfusionista? Não haverá evolução do Perfusionista com cada um executando a CEC da mesma forma que aprendeu há muitos anos.. Todos querem reconhecimento, mas precisam saber que, sem evoluir, aprimorar seus conhecimentos e melhorar seus resultados, isso jamais acontecerá.

 

Willian Duarte Machado

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